Pão e Vinho = farelo de trigo e borra

Com o passar do tempo a humanidade passou a trocar alimentos por lixo industrial, sempre em sacos de plástico altamente poluentes, muito coloridos e cheios de personagens da mídia, via de regra com um tamanho muito maior do que o que tem dentro e sempre com menos conteúdo a cada novo ciclo, ou nova campanha publicitária da eterna (e velha) “nova embalagem”, sempre com novo peso/volume, sempre menor do que o daquela antiga embalagem.

Estimo que nos próximos anos vou ter de levar pinça e lente de aumento para comprar meus produtos industrializados e usar o carrinho do supermercado para carregar o meio de pagamento. Por sinal o Brasil tem uma relevância muito especial neste quesito, aqui o galão, que é uma medida oficial americana, tem 3,2l (podia ser batizado de galão do trouxa brasileiro), o litro de azeite tem 900ml e por aí afora … É de se ficar zonzo tentar imaginar de onde vem aquele número estranho de especificação de tamanho do conteúdo e de sua informação nutricional das embalagens, que também define uma porção das mais esdrúxulas para esconder o percentual de veneno que o lixo carrega.

Voltando ao fato (do lixo industrial em si), sempre me vem a mente a dor de cabeça que era o farelo do trigo, descarte do moinho, que ficava ao relento por meses esperando que alguma outra indústria inescrupulosa, produtora de ração animal quem sabe, o levasse, enquanto esperava repleto de pombas cagando por cima e infestando tudo com todo o tipo de germes, pois era diferente da borra (e o sarro *) do mosto, que ficava nas paredes das pipas do vinho por pouco tempo, porque tinha de ser descartado logo para dar espaço para a produção do vinho da próxima safra. Para esse, diferente do farelo, ligeirinho aparecia um mal intencionado que comprava, misturava com cachaça e corante e vendia como sendo vinhos de Caxias, de Garibaldi e de tantos outros rincões.

Para atualizar: hoje quase não se usa pipas de madeira pra armazenar vinho comum novo, deve ser por isso que muitos daqueles vinhos sumiram. Até na igreja católica com o passar do tempo e as regras do politicamente correto se substituiu o pão e a taça de vinho por uma massa de farinha e água (com menos de meia grama) e um pequeno gole de vinho ou suco de uva, para o padre e o pecador arrependido não cair em tentação e ficar bebum, além de se alinhar ao consumo de produtos industrializados.

Nas melhores padarias do Brasil, o pão com fibras até custa mais caro (na grande maioria das vezes a tal fibra é aquele farelo cagado de pombas), o preço do trigo foi às alturas e pão mais ainda, mesmo assim comemos mais do que carne, porque esta nem se pode passar perto se o porta-malas da “limosine” não estiver cheio de ouro. O pet da casa só come ração, que agora é muito mais cara que pão porque não é mais feita com farelo de trigo (que foi para o pão do dono), mas muito menos nutritiva que sobras da refeição que nem tem mais na casa, e assim a bosta do bichinho fica mais cheia de capim e com menos cheiro.

Restos de matéria prima pobre em nutrientes (mas cheias de sal, açúcar e conservantes) acabam lotando os silos de grande produtores e distribuidores de lixo ensacado e ricamente estampados com o último personagem da Disney, quase sempre um bichinho magrinho e muito mais esperto que o fã consumidor.

Durante o período de pandemia, pelo menos no Brasil, este vilão do saco botou as manguinhas de fora com uma fome de dragão e os produtos multicoloridos atingiram os preços mais exorbitantes que se pode imaginar. Inversamente proporcional a isto, a comida de verdade produzida por pequenos produtores, permaneceu com seus preços mais ou menos estabilizados. Obtenha-se aqui a clareza de que não falo de megaprodutores (reis do gado, reis do trigo ou reis do arroz), que tem tanto poder de mercado quanto as indústrias do saco colorido e que também fuderam com o preço de muitos itens básicos da mesa do pobre que hoje não são mais produzidos por quem crie, plante e colha, mas por máquinas gigantes e estruturas muitas vezes mais alastrantes que grandes complexos industriais.

Da próxima vez que for fazer compras pense na sua saúde, na sua expectativa de vida, compre alimentos frescos (comida de verdade, sem saco), são os que vão estarem com o menor preço, mas tem de lavar e descascar para poder consumir. Se não puder evitar, procure o saco do tamanho que o preço total não vai ser maior pelo saco do que pelo conteúdo.

Vai ser bom para o seu bolso e para a sua saúde, vai ser bom para quem produz de forma limpa e trabalha em vez de passar o tempo arquitetando como cobrar mais caro e entregar menos.

Agora que fiquei velho, tenho pouca esperança de sobrar tempo para mudar o mundo, mas acho que ainda dá para trabalhar para ele não ficar mais torto.

Se és ainda jovem, não espera demais, te empenha em mudar, só vai te trazer felicidade. De lambuja, tu vais te alimentar mais e desembolsar menos.

Sou economista de formação e sempre me interessa debater o desenvolvimento econômico dos lugares, mas o mercado que se propaga e se alardei atualmente não tem nada a ver com aquele ético e organizado do filósofo Adan Smith que certamente tem de “se virar no túmulo” quando ouve o Carlos Alberto Sardenberg.

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